PAS637. Encontro no panteão

Contexto da passagem: Amos, o velho vaqueiro que servia Rosemary e tinha assassinado a mãe desta, assassina o banqueiro Sutton e o rancheiro Stag, procurando ficar com o tesouro guardado no panteão. Mas após o seu vil ato, tem uma surpresa


Amos riu de maneira horripilante, ao ver os dois cadáveres estendidos no solo. Empurrou-os com os pés, verificando a sua definitiva Imobilidade. Meneou a cabeça.
— Tenho tempo — disse. — O narcótico que que lhes pus na ceia fá-los-á dormir doze horas a fio. Amanhã por estas horas estarei muito longe daqui, com meio milhão na bolsa.
Tirou do colete a chave do panteão e introduziu-a na fechadura, fazendo-a depois rodar. Ato contínuo, empurrou com as duas mãos os batentes da grade.
Permaneceu uns momentos imóvel sob o umbral da entrada. No interior do jazigo havia um túmulo de pedra, destinado evidentemente a conter o ataúde com os restos mortais da mãe de Rosemary.
Naquele momento, porém, via-se ali algo mais que a simples lousa de pedra que deveria haver. Os olhos de Leigh dilataram-se ao contemplar a figura imóvel, inteiramente vestida de branco, que jazia sobre o túmulo. Era uma mulher e tinha, segurando-a com as duas mãos, uma pequena caixa que descansava sobre o peito.
— Não! — exclamou, sentindo que os cabelos se lhe eriçavam. — Isto não é possível.
A mulher soergueu-se com lentidão, olhando-o fixamente com os olhos muito abertos
— Vieste buscar o tesouro de meu marido e de Juan Gueivada, Amos Leigh — disse com voz profunda e cavernosa.
O velho não podia falar, tão aterrorizado estava.
A mulher desceu do túmulo. O seu peito estava completamente coberto de sangue, o qual se destacava sinistramente na brancura do vestuário.
— Mataste-me há vinte anos — prosseguiu a mulher. Estendeu as mãos segurando sempre a pequena arca. — Toma, aqui tens o que tanto buscavas.
Amos recuou um passo, lívido de espanto.
— Não, tu não podes ser ela! És a filha! Estás a tentar enganar-me.
— Não te engano, Amos Leigh. Sou o espectro da senhora Jullien, a quem tu assassinaste com dois tiros, por se negar a entregar-te o que só podia pertencer a sua filha e ao filho de Juan Guelvada. Olha! Ainda corre sangue das feridas que os teus projéteis abriram no meu peito.
— Isto é uma farsa, uma imunda comédia! Não te valerá de nada essa história de fantasmas.
— Na verdade?! Se pensas assim, porque não o comprovas? Uma pessoa não pode morrer duas vezes. Levarás o cofrezinho com o seu conteúdo, é certo; mas de cada vez que o vás abrir, aparecerei junto de ti para te acusar das três mortes que, por ambição, tu e os teus cúmplices cometeram. Toma, toma esse tesouro porque tanto ansiaste.
Os olhos de Leigh quase saíam das órbitas. O fantasma avançou para ele, fazendo-o retroceder uns tantos passos, já fora da cripta.
— Não sei se és um espectro ou não, mas vou averiguá-lo agora mesmo. Isso de fantasmas — o velho rangia horrivelmente os dentes é só bom para as pessoas crédulas. E eu não acredito em tais atoardas.
A mão voou até ao coldre, tirando o revólver num movimento rapidíssimo. O cano da arma começou a vomitar fumo e fogo. Um após outro, os seis tiros ribombaram no silêncio da noite. A tão curta distância, Leigh não podia falhar a pontaria. Porém, quando as munições se esgotaram, verificou, com assombro enorme, que o espectro continuava em frente dele. Permanecia sorrindo, sem deixar de lhe estender a pequena arca.
— Vês? Não se pode matar duas vezes uma mesma pessoa. As balas que disparaste agora passaram através do meu espírito. Toma, toma...
De súbito, o velho lançou um grito horrível. Levou as mãos à cabeça e, num repente, deu meia volta e começou a correr.
Não chegou, porém, a dar meia dúzia de passos. Um cavaleiro saiu inesperadamente das sombras, cortando-lhe de forma brusca a corrida.
— Mataste o meu amo! — uivou Cussey.
Amos deteve-se abruptamente. Sentiu que a razão lhe fraquejava mas não pôde pensar muito mais.
Cussey tinha já o revólver na mão. Cego de ira apertou o gatilho. As balas penetraram no rosto do velho, destroçando-o horrivelmente. Por uma razão inexplicável manteve-se de pé até que descaiu para, um lado, com a cabeça convertida numa repugnante massa de ossos e carne ensanguentada.
Henry saiu então do interior do jazigo. Até essa altura tinha permanecido oculto atrás do túmulo.
— Não atire, Cussey — disse.
O homenzarrão olhou-o fixamente mas sem baixar o revólver.
— É lamentável que tenha depositado a sua confiança e afeto num homem como Sage, mas tanto ele como os outros dois mereciam morrer. Vingou já a morte do seu amigo. Nada, pois, tem a fazer aqui, a não ser dirigir-se a Saladosa e relatar ao xerife o que sucedeu.
Cussey assentiu pesadamente. Guardou o revólver e, sem pronunciar uma só palavra, puxou as rédeas e deu meia volta, afastando-se dali em poucos momentos.
Henry volveu então a cabeça. Rosemary estava a poucos passos de distância e cambaleava visivelmente.
Saltou até ela, mas não conseguiu evitar que o cofre se lhe desprendesse das mãos. Ao chocar contra o solo, a tampa abriu-se, deixando sair uma rutilante cascata de algo que brilhava deslumbrantemente, com relâmpagos esverdeados de impressionante fulgor.

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