PAS745. Despedida à «perigo de morte»

Ao chegar à janela para assistir ao embarque do cavalo notou que todos os olhos, agora sem dissimulação, se tinham pousado nele. E pareceu-lhe até ouvir vários suspiros de alivio, como para dar a entender que só agora, ao vê-lo dentro do comboio, se sentiam à vontade.
Minutos depois, quando a locomotiva arrancava, com bastante lentidão, ouviu a voz do xerife da porta do gabinete do chefe da estação:
— Boa viagem, homem, e nunca mais se lembre de que existe uma povoação chamada Cedar Rock.
— Não era necessária a observação, xerife.
Ainda a carruagem à janela da qual se encontrava o homem ruivo não tinha chegado à esquina do edifício, quando saiu deste uma mulher jovem e esbelta, com duas pedras nas mãos e duas labaredas de fogo nos olhos.
A mulher, colocando-se à beira do cais, dirigiu-se com voz indignada ao homem ruivo:
— Eh!, tu, Bob: «perigo de morte», como é que te vais embora sem te despedires de mim? Toma, aí tens o meu presente, para que te lembres sempre de Nelly Craig, a bailarina do «Dois Luzeiros».
O homem, ao ver o gesto agressivo da bailarina, retirou vivamente a cabeça, pelo que as duas pedras sibilaram ameaçadoramente sobre ele, sem lhe tocar, acabando por se estatelarem contra o vidro da janela da frente, que ficou feita em cacos, provocando nos viajantes um lógico sobressalto.
Bob, invadido por uma cólera fria, empunhou os «Colts» e, voltando à janela, começou a atirar aos pés da rapariga, que começou a dançar, aterrada, perante aquela chuva de projéteis que levantava junto dos seus sapatos tanta poeira, até que, incapaz de dominar por mais tempo os nervos descontrolados, acabou por desmaiar.
O xerife e os dois ajudantes, passado o estupor produzido pela violenta reação do forasteiro, puxaram rapidamente das armas e correram como setas até à cauda do comboio, insultando Bob e ordenando-lhe que se considerasse preso por tentativa de homicídio.
O homem soltou uma gargalhada cavernosa, apontou um dos revólveres para Hubert Dyncan e para os seus auxiliares e apertou suavemente o gatilho da arma três vezes.
Um oh! de admiração saiu do público que da estação observava a singular cena, ao ver os três chapéus dos representantes da Lei voarem a um tempo pelos ares.
Antes que o comboio acabasse de desaparecer ao dobrar um pronunciado cotovelo, os habitantes de Cedar Rock, surpreendidos, ainda ouviram uma nova gargalhada cavernosa e, a seguir, a voz sardónica daquele homem que seria eternamente recordado como «Bob: perigo de morte».
— Não sou eu que me hei-de lembrar de vocês, mas sim vocês de mim. E deem graças por eu ter escolhido como alvo os chapéus em vez das cabeças. Nem sempre me apanham de tão bom humor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

RB012. Homem de pistola

PAS784. Um tio que gostava de beijar uma menina